domingo, 16 de janeiro de 2011

Amor com amor se paga?

Ela era uma revolucionária que queria transformar o mundo, ou seria o seu mundo? Não sabia explicar. Andava com camisetas que traziam dizeres dos pensadores revolucionários, Che, Marx, Trotsky, vestia saias compridas e sandálias rasteiras e pra completar o visual de intelectual óculos de acetato preto.  Ela amava a vida que levava sempre envolvida em manifestações políticas, participando de momentos culturais, ou sentada num barzinho tomando uma cerveja e degustando da boa música. Era muito boa no que fazia, conseguia ser compreendida por muitos, só que ela mesma não se compreendia, tinha muito amigos e admiradores.
Ele, um cavalheiro. Moço bem vestido, andava pela universidade sempre com calças de alfaiataria e camisa branca e botão, o cabelo era sempre bem cortado, com certa regularidade quinzenal, afinal de contas não poderia ele perder seus traços de um rapaz conservador.  Também era um revolucionário, não aos moldes dela, mais pareciam pensar da mesma forma.  Era tímido e tinha poucos amigos, mais parecia querer mais, ser alguém diferente. Talvez.
Já haviam se olhado várias vezes, Ela o achava um gatinho mais não se interessava muito, queria mesmo era saber dos cabeludos que não pareciam ligar muito para a sociedade consumista, estes sim mexiam com sua cabeça e seu coração.  Mais um evento inesperado os aproximou, finalmente foram apresentados. Ela não sabia o motivo pelo qual suas mãos haviam ficado suadas naquele momento, só queria saber por que Ele não havia tirado os olhos dela. Naquela noite algo aconteceu pensou Ela.
A aproximação foi instantânea, os olhares diziam que eles queriam algo mais, então o bom moço fez o convite, iriam sair num sábado à noite.
Ele como o cavalheiro que era, foi lhe apanhar em casa, o carro era caro, ela percebeu que a diferença não estava somente nas vestimentas. Mais queria desvendá-lo.
A noite foi boa, conversaram muito, Ele lhe apresentou mais intimamente Chico Buarque de Holanda, resolveram então que a melhor opção era ir para um lugar mais reservado onde poderiam continuar a conversa. Encontraram o que futuramente ficaria definido como “Casinha”.
A noite foi linda, Ela havia considerado Ele o melhor homem de sua vida, se apaixonou assim que deu-lhe o primeiro beijo, e foi assim por muito tempo. Na universidade os amigos começavam a perceber que os dois se tratavam com muita intimidade, no entanto nada era definido. Ele havia pedido que Ela fosse discreta, pois não gostaria que fizessem algum comentário de sua vida, Ela concordou,viveram assim por muito tempo. O problema foi que a moça que queria mudar o mundo pensara que havia encontrado seu grande amor, não queria mais fazer nada, passava o dia escutando Chico e pensando no “seu gatinho”, ela o chamava assim. A moça tão revolucionária já não se preocupava em viver um relacionamento aos moldes burguês. Queria continuar saindo pra jantar um bom su shi, locar filmes e assistir deitada ao ladinho dele, ir ao teatro, ou tomar um vinho na “Casinha”. Para ela os dois estavam apaixonados.
Foi o melhor ano de sua vida, ela já fazia planos de como seria o próximo, poderiam eles assumir aos amigos o amor incondicional que estavam vivendo, poderiam viajar, ou mesmo Ela já poderia conhecer a família dele, já que Ele era freqüentador assíduo de sua casa. Ela conversou com Ele e concordou em tudo que Ela havia dito, só pediu mais uns dias.
O aniversário dele chegou e quem recebeu o presente foi ela, A moça que ele sempre amou, havia retornado de Londres, e eles passariam a noite juntos. Fato este que infelizmente Ela só descobriu depois do acontecido.
Meu mundo caiu! A música da Maysa soava como a história de sua vida. Ele tentou se desculpar disse que havia tentado lhe fazer perceber que o relacionamento deles era casual e que Ela não compreendia isso.
Ela sofreu muito, chorou durante dias, não acreditava que o bom moço, havia lhe sacaneado de tal forma, mais ainda que Ela a menina esperta tivesse permitido que a situação chegasse a este ponto.
Queria Ela entender se as poesias que Ele havia recitado, não significavam nada, se as noites de chuva que eles ficavam junto em sua casa, não lhe representavam nada, se as inúmeras visitas a “casinha”, não fizeram Ele perceber, que o ato não era meramente carnal.
Ela sofria a cada memória, sofria por ter vivido esse amor, sofria por que amava e não era amada.... Simplesmente sofria por que não conseguia odiar-lo mesmo depois de todo sofrimento que Ele lhe causou. Sofria mais ainda pela sua ignorância.

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